Peixe Nu  

Um aquário de espécimes bizarros


 
Ontem perdi teu retrato
entre um copo e outro
enquanto imaginava
o que terias feito do meu.
Perdi teu retrato na boca de um cão,
perdi teu retrato por medo.
E fiquei ali
Olhos arregalados
Vendo a tartaruga mágica
Que se afastava a rir.
A ausência do horizonte roubou minha bússola.
Me diz que não será asssim,
E que me darás em sonhos
A cor de teus olhos
Em luz verdadeira...
A ausência do horizonte roubou minha bússola,
mas ainda anseio a estrela humilde
que ilumina paisagens idas.

  posted by Linguado @ 8:01 PM   


24.8.03  

 
Difícil de se ter um coração
Se eu tivesse dois
Um eu te dava
Para pendurar em teu quarto
Ao lado da janela
Que dá para a noite da cidade
E se eu tivesse três
Abriria um açougue
Para as menininhas carentes
Mas hoje não há nada em meu peito
Além da chuva e do vento
E nem chorar consigo.




  posted by Linguado @ 7:54 PM   



 
Distâncias
a perder de vista
silêncios ao longo da costa
esperas
a perder de vista
uma fila espera
e esperaram antes
esperarão depois
que a onda se erga
que a terra se abra
que o cristo renasça
distâncias
a comprar com moedas
e seduções de cristal
na boca da rua
restolhos humanos

virá
o revirar dos nomes
o revirar de tudo
vira o violento
antídoto
para acabar com as moscas de teus olhos
e com essa repetição de verbos



  posted by Linguado @ 7:44 PM   


5.8.03  

 
veja a cidade se debruçar sobre teu sono
sem peso
e esparramar seu silêncio
sobre teus cabelos
eu
estou de partida
nada é meu
exceto a estrada
a tristeza está na carne
a memória está na carne
mas eu não estou na carne
eu estou na chuva que cai
na árvore que brilha contra o céu cinza
na revoada de meteoros nunca vista
eu não estou na carne

eu estou na dívida
saldada pelo silêncio
e na palavra que não encontra eco
e no desejo que transborda
eu estou na distância
e nas esquinas do sonho
eu estou no mar
se acaso reverei o mar
estou na montanha infinita
que consola a chaga da noite.


  posted by Linguado @ 3:49 PM   



 
De volta ao velho lar. Há alguma coisa errada com o Blogger br...

ETIMOLOGIAS

Uma orquestra: bando de orcas que adora devorar maestros.
Acho que isso é um bem para o mundo. Maestros podem ser muito chatos.
E todos babam no maestro. As orcas não agüentam isso, seu espírito livre não pode suportar os grilhões de um imbecil descabelado que se acredita deus.
E o tomam de assalto, o despedaçam, como a um filhote de foca.
É um longo trabalho, acabar com esses maestros do mundo. Bem: pelo menos já está começadp.

  posted by Linguado @ 7:20 PM   


7.6.03  

 
Caminhar pelas ruas antigas, os olhos serenos e atentos.
Observar, tudo penetrar sem prender, cativando leve,
leve como a pele dessa menina-borboleta
que não me viu,
e que aleteia rua abaixo
erguendo flores,
desmoronando homens.

  posted by Linguado @ 3:25 PM   


17.3.03  

 
A natureza é sempre surpreendente, mas
algo limita o avanço do espírito
em direção ao coração da árvore,
a fome ou a dor ou seres maus
o passado a memória torpe aquilo
que escorreu entre os dedos e ainda
grita grita grita.

  posted by Linguado @ 3:23 PM   



 
um dia serei himalaia
hymalaya
um dia serei aconcágua
um dia
serei
pico da bandeira
mattelhorne
e então dormirei tranqüilo


  posted by Linguado @ 9:18 PM   


9.3.03  

 
muito álcool=pouco coração

  posted by Linguado @ 9:14 PM   



 
o coração de cristal se quebra e renasce feito fênix sobre as cinzas da cidade baixa

  posted by Linguado @ 9:13 PM   



 
São mistérios do corpo e da palavra. São mistérios da noite.
O corpo alucina entre perfumes e carnes. Ninguém compreende; somente os passantes fazem uma vaga idéia do que se passa, de quais ares permanecem sobre a face em êxtase.
Tua idade ardeu sob minha língua bífida; eu pintava torturas na auréola de teu mamilo, e tornei-me um capacho florido para vir a ser girassol.
Ninguém compreende. Somente os passantes, dissolvendo-se no ar à sombra de um hálito, recordam quartos desabitados, onde arrastou-se a sombra de uma grande serpente.
É a hora do fim dos temores.



  posted by Linguado @ 9:28 PM   


2.3.03  

 
Demasiadas palavras. As pessoas falam DEMAIS. Só pode ser carência. Eu, pelo menos, sinto falta de espaços silenciosos. Devo ser o único. As pessoas já não falam, salivam e berram, e geralmente sequer são elas que estão ali, "falando"; na verdade, são carcaças tomadas de assalto por histéricos insetos de outra galáxia. Posso até acabar me acostumando - ou quem sabe aprendo a levantar e ir embora.

  posted by Linguado @ 11:51 PM   


20.2.03  

 
Oportunidades:
"o momento, agora, já,
o único, não perca, não perca!"
Bulhufas.
Apenas abra a mão
e deixe a chuva cair na palma
e escorrer entre os dedos.

  posted by Linguado @ 11:52 PM   


12.2.03  

 
Daqui da janela do apartamento de J., vejo reflexos do sol que se põe, é uma pintura, um rosa vívido tinge o céu desta cidade de fantasmas. Fantasmas, a grande atração turística de POA - vem comigo, vou te mostrar seus ninhos, seus rastros nas fachadas antigas corroídas pelo tempo. Homens maus aprisionaram espíritos de crianças nas vidraças. Rituais sangrentos no subsolo úmido, o cheiro de mofo ardendo nas narinas. E tudo mantendo-se através dos séculos... POA foi institucionalizada a Capital da Morte. Se não podes ver, leia nas entrelinhas, meu amigo, e em seguida arranca-me daqui! ARRANCA-ME DAQUI!

  posted by Linguado @ 8:19 PM   



 
É necessário acabar com a fome dos animais.
Todo dia, os mesmos tigres rondam a casa, tentando se infiltrar pelo buraco da porta ou por baixo da fechadura, ou vice-versa,
tanto faz, não há tempo para pensar,
os tigres. O que eles pedem
com seus rugidos, é uma nova nudez
que não esteja impregnada
pelo odor nauseabundo da moeda.
Eles pedem, eles urram
nos umbrais das lojas.
Eles pedem árvores,
selvas,
montanhas
e sua ração de peixe,
de carne de verdade.


São sábios, os tigres,
e seu hálito é quente,
próximo e quente.




  posted by Linguado @ 8:06 PM   



 
Vamos falar de outra coisa que não seja carëncia,
ou nem falar, somente olhar
para a rua, as luzes,
sentir a brisa (quando há).

Não posso traçar teu rumo,
e é bom saber
que todas as estradas estão abertas,
aguardando somente a canção da coragem.
Um dia eu também crescerei,
um dia eu também serei estrela,
quando, dissolvidas as amarras,
meu barco adentrar o oceano.




  posted by Linguado @ 3:10 AM   



 
Ouvi de passagem, em um bar...
"Meu cachorrinho morreu. Acho que vou adotar um filho."

  posted by Linguado @ 2:17 AM   



 
Dificuldade com as palavras?
Cale-se para sempre, ou:
diga somente o essencial,
o indispensável.
As palavras se erguem
como lanças na escuridão,
voltando-se furiosas
contra a língua que as criou,
enquanto o peixe dorme
no fundo, no limo.


  posted by Linguado @ 5:23 PM   


10.2.03  

 
Vejo muitas pessoas pela noite da cidade buscando algo que as faça sentir-se vivas, mesmo que seja o espectro de uma morte química que encontre sorrisos no nada de outras faces. Não é esse meu caminho; mas como tranqüilizar o vácuo de meus olhos? Sonho, vou sonhando até o medo arrancar minhas asas; a cidade me sufoca com seus ossos artificiais e sua fome tão real.
Mas não carrego armas em minhas mãos, e conto com teu apoio para a paz... mas porquê nunca estás aqui, porquê sempre te refugias entre as carnes mortas de uma expectativa falida?
Pelo menos choveu. A chuva lava feridas, a chuva e a saudade.
A solução real para minha grande dor depende de uma tranqüilidade lacustre.

  posted by Linguado @ 8:22 PM   


9.2.03  

 
Tens de buscar a identidade, a telepatia, o silêncio.
Poucas palavras, ar de montanha.
As aves não voltaram este ano,
e o homem segue para a colheita.
Não houvesse o halo da moeda,
grilhão entre o sonho e a carne...

  posted by Linguado @ 7:41 PM   


7.2.03  

 
Ouvi o lamento do palhaço nos ecos da memória. Não era tão tarde quanto a meia-noite dos olhos que já não serão vistos.

  posted by Linguado @ 12:49 AM   



 
MÚSICAMÚSICAMÚSICA
envolvendo completamente os sentidos - relaxa tua carência, brinca com os sons,
meu pequeno mago sem bridas,
a magia provém da tranqüilidade
senão, não vale a pena.
Os espíritos dos mortos clamam por um oceano sem sangue...

  posted by Linguado @ 5:49 PM   


6.2.03  

 
Sobre a cidade pairam os pássaros noturnos, voando rente à janela que dá para a rua. Calor insuportável até os ossos... ah, e depois de tudo que aconteceu nos últimos dias, a vontade que dá é de partir, de um salto, através do mundo, rompendo os medos da carcaça humana, e alcançar outros lugares, outros ares mais respiráveis...
CORDILHEIRA! CORDILHEIRA!
( o fantasma de Vallejo sopra um ar frio e suave em minha testa )

  posted by Linguado @ 2:22 AM   


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