Ontem perdi teu retrato
entre um copo e outro
enquanto imaginava
o que terias feito do meu.
Perdi teu retrato na boca de um cão,
perdi teu retrato por medo.
E fiquei ali
Olhos arregalados
Vendo a tartaruga mágica
Que se afastava a rir.
A ausência do horizonte roubou minha bússola.
Me diz que não será asssim,
E que me darás em sonhos
A cor de teus olhos
Em luz verdadeira...
A ausência do horizonte roubou minha bússola,
mas ainda anseio a estrela humilde
que ilumina paisagens idas.
Difícil de se ter um coração
Se eu tivesse dois
Um eu te dava
Para pendurar em teu quarto
Ao lado da janela
Que dá para a noite da cidade
E se eu tivesse três
Abriria um açougue
Para as menininhas carentes
Mas hoje não há nada em meu peito
Além da chuva e do vento
E nem chorar consigo.
Distâncias
a perder de vista
silêncios ao longo da costa
esperas
a perder de vista
uma fila espera
e esperaram antes
esperarão depois
que a onda se erga
que a terra se abra
que o cristo renasça
distâncias
a comprar com moedas
e seduções de cristal
na boca da rua
restolhos humanos
virá
o revirar dos nomes
o revirar de tudo
vira o violento
antídoto
para acabar com as moscas de teus olhos
e com essa repetição de verbos
veja a cidade se debruçar sobre teu sono
sem peso
e esparramar seu silêncio
sobre teus cabelos
eu
estou de partida
nada é meu
exceto a estrada
a tristeza está na carne
a memória está na carne
mas eu não estou na carne
eu estou na chuva que cai
na árvore que brilha contra o céu cinza
na revoada de meteoros nunca vista
eu não estou na carne
eu estou na dívida
saldada pelo silêncio
e na palavra que não encontra eco
e no desejo que transborda
eu estou na distância
e nas esquinas do sonho
eu estou no mar
se acaso reverei o mar
estou na montanha infinita
que consola a chaga da noite.
De volta ao velho lar. Há alguma coisa errada com o Blogger br...
ETIMOLOGIAS
Uma orquestra: bando de orcas que adora devorar maestros.
Acho que isso é um bem para o mundo. Maestros podem ser muito chatos.
E todos babam no maestro. As orcas não agüentam isso, seu espírito livre não pode suportar os grilhões de um imbecil descabelado que se acredita deus.
E o tomam de assalto, o despedaçam, como a um filhote de foca.
É um longo trabalho, acabar com esses maestros do mundo. Bem: pelo menos já está começadp.
Caminhar pelas ruas antigas, os olhos serenos e atentos.
Observar, tudo penetrar sem prender, cativando leve,
leve como a pele dessa menina-borboleta
que não me viu,
e que aleteia rua abaixo
erguendo flores,
desmoronando homens.
A natureza é sempre surpreendente, mas
algo limita o avanço do espírito
em direção ao coração da árvore,
a fome ou a dor ou seres maus
o passado a memória torpe aquilo
que escorreu entre os dedos e ainda
grita grita grita.
São mistérios do corpo e da palavra. São mistérios da noite.
O corpo alucina entre perfumes e carnes. Ninguém compreende; somente os passantes fazem uma vaga idéia do que se passa, de quais ares permanecem sobre a face em êxtase.
Tua idade ardeu sob minha língua bífida; eu pintava torturas na auréola de teu mamilo, e tornei-me um capacho florido para vir a ser girassol.
Ninguém compreende. Somente os passantes, dissolvendo-se no ar à sombra de um hálito, recordam quartos desabitados, onde arrastou-se a sombra de uma grande serpente.
É a hora do fim dos temores.
Demasiadas palavras. As pessoas falam DEMAIS. Só pode ser carência. Eu, pelo menos, sinto falta de espaços silenciosos. Devo ser o único. As pessoas já não falam, salivam e berram, e geralmente sequer são elas que estão ali, "falando"; na verdade, são carcaças tomadas de assalto por histéricos insetos de outra galáxia. Posso até acabar me acostumando - ou quem sabe aprendo a levantar e ir embora.
Oportunidades:
"o momento, agora, já,
o único, não perca, não perca!"
Bulhufas.
Apenas abra a mão
e deixe a chuva cair na palma
e escorrer entre os dedos.
Daqui da janela do apartamento de J., vejo reflexos do sol que se põe, é uma pintura, um rosa vívido tinge o céu desta cidade de fantasmas. Fantasmas, a grande atração turística de POA - vem comigo, vou te mostrar seus ninhos, seus rastros nas fachadas antigas corroídas pelo tempo. Homens maus aprisionaram espíritos de crianças nas vidraças. Rituais sangrentos no subsolo úmido, o cheiro de mofo ardendo nas narinas. E tudo mantendo-se através dos séculos... POA foi institucionalizada a Capital da Morte. Se não podes ver, leia nas entrelinhas, meu amigo, e em seguida arranca-me daqui! ARRANCA-ME DAQUI!
É necessário acabar com a fome dos animais.
Todo dia, os mesmos tigres rondam a casa, tentando se infiltrar pelo buraco da porta ou por baixo da fechadura, ou vice-versa,
tanto faz, não há tempo para pensar,
os tigres. O que eles pedem
com seus rugidos, é uma nova nudez
que não esteja impregnada
pelo odor nauseabundo da moeda.
Eles pedem, eles urram
nos umbrais das lojas.
Eles pedem árvores,
selvas,
montanhas
e sua ração de peixe,
de carne de verdade.
São sábios, os tigres,
e seu hálito é quente,
próximo e quente.
Vamos falar de outra coisa que não seja carëncia,
ou nem falar, somente olhar
para a rua, as luzes,
sentir a brisa (quando há).
Não posso traçar teu rumo,
e é bom saber
que todas as estradas estão abertas,
aguardando somente a canção da coragem.
Um dia eu também crescerei,
um dia eu também serei estrela,
quando, dissolvidas as amarras,
meu barco adentrar o oceano.
Dificuldade com as palavras?
Cale-se para sempre, ou:
diga somente o essencial,
o indispensável.
As palavras se erguem
como lanças na escuridão,
voltando-se furiosas
contra a língua que as criou,
enquanto o peixe dorme
no fundo, no limo.
Vejo muitas pessoas pela noite da cidade buscando algo que as faça sentir-se vivas, mesmo que seja o espectro de uma morte química que encontre sorrisos no nada de outras faces. Não é esse meu caminho; mas como tranqüilizar o vácuo de meus olhos? Sonho, vou sonhando até o medo arrancar minhas asas; a cidade me sufoca com seus ossos artificiais e sua fome tão real.
Mas não carrego armas em minhas mãos, e conto com teu apoio para a paz... mas porquê nunca estás aqui, porquê sempre te refugias entre as carnes mortas de uma expectativa falida?
Pelo menos choveu. A chuva lava feridas, a chuva e a saudade.
A solução real para minha grande dor depende de uma tranqüilidade lacustre.
Tens de buscar a identidade, a telepatia, o silêncio.
Poucas palavras, ar de montanha.
As aves não voltaram este ano,
e o homem segue para a colheita.
Não houvesse o halo da moeda,
grilhão entre o sonho e a carne...
MÚSICAMÚSICAMÚSICA
envolvendo completamente os sentidos - relaxa tua carência, brinca com os sons,
meu pequeno mago sem bridas,
a magia provém da tranqüilidade
senão, não vale a pena.
Os espíritos dos mortos clamam por um oceano sem sangue...
Sobre a cidade pairam os pássaros noturnos, voando rente à janela que dá para a rua. Calor insuportável até os ossos... ah, e depois de tudo que aconteceu nos últimos dias, a vontade que dá é de partir, de um salto, através do mundo, rompendo os medos da carcaça humana, e alcançar outros lugares, outros ares mais respiráveis...
CORDILHEIRA! CORDILHEIRA!
( o fantasma de Vallejo sopra um ar frio e suave em minha testa )